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Artigos por Rui Diniz:

Pessoa: Vídeo de homenagem à "Mensagem" de Fernando Pessoa

Submetido em 10/05/09 - 10:11 PM

Pessoa foi recriado na plataforma de comunicação do Second Life.
Integrado na exposição "Um Olhar sobre a Mensagem de Fernando Pessoa", patente simultaneamente na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana e em Second Life® em parceria com a Câmara de Cascais.
Com realização de Hugo Almeida, considerado internacionalmente um dos melhores realizadores da técnica cinematográfica de machinima do mundo, texto e argumento de Rui Diniz e locução de Luís Gaspar (Estúdio Raposa) foi produzido um vídeo demonstrativo desta nossa vida do poeta:


Version with english subtitles:

«Para ser grande, sê inteiro: nada
 Teu exagera ou exclui.

 Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
 No mínimo que fazes.

 Assim em cada lago a lua toda
 Brilha, porque alta vive.»

Minhas Senhoras e meus senhores... bem vindos... eu sou Poeta-Homem, Bardo da existência humana, sacerdote do Quinto Sol, que é o de Portugal.
Eu sou monge escriba, frade asceta... sou, afinal, Poeta.

Bem vindos... eu sou Pessoa e sou gente como vós.
Sou infante e sou agreste, sou Caeiro,
Sou Reis, sou ciente e sou inteiro...
e, como vós, quando as forças minguam de esforços tantos,
rendo-me e derrotado sou, Álvaro de Campos!
Viestes aqui hoje para me rever ou reler minha Mensagem?
Que esperais vós encontrar de mim Pessoa?
Não vistes, no que escrevi, já tudo o que enquanto homem me compõe e que tão asceticamente vos guardei para o póstumo?

«Quando vier a Primavera,
 Se eu já estiver morto,
 As flores florirão da mesma maneira
 E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
 A realidade não precisa de mim.

 Sinto uma alegria enorme
 Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.»

Não veleis pois um morto; consagrai sim a palavra da pessoa Pessoa, pessoa inteira, homem d'alma, profundo Português.

Se, ainda assim, há ainda de vós quem veio pelo Homem e não pela Palavra, deixei-vos eu a tempo dito:

«Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
 Não há nada mais simples.
 Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
 Entre uma e outra todos os dias são meus.»

E por isso, do Homem, vos deixo apenas meus desejos:
13 de Junho de 1888... 30 de Novembro de 1935.

«Não sou nada.
 Nunca serei nada.
 Não posso querer ser nada.
 À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»

Bem vindos... eu sou Poeta...

...

Consideram-se muitos de vós portugueses, certamente. Sabeis então da Portugalidade da minha Mensagem? Sabeis que nascemos, imbuídos por Deus, para ser o Porto-Cálido deste nosso Ocidente, na demanda de rasgar o céu com a chama de Prometeu?

VII. OCIDENTE

Com duas mãos - o Acto e o Destino -
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o facho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

...

Vossos pais e até vós, que já haveis sido crianças, e vossos filhos e vossos netos, haveis lido estes poemas nas vossas escolas... Sabeis, crianças do outrora e crianças de agora, que o mar que tendes de atravessar, o tal Português (que nos tempos que atravessamos pouco ou nada significa para vós), é o abismo de sofrimento que deverá conduzir-nos à realização de Portugal?

X. MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

...

E ei-lo aqui: o Destino de Portugal, a nossa Sina, o nosso Fado, a longa espera Portuguesa pelo Rei tão Desejado...

O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa-- os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

...

Meu Deus!... Que faço aqui? Com que migalha da Vossa Glória me presenteaste? É este o Templo da minha Alma? É este o local do meu repouso eterno?
Não! Esta é a minha Segunda Vida, my Second Life. Aqui, minh'alma vive novamente, na reencarnação do sonho que é Vossa vontade: levar a Nau da Alma Portuguesa a materializar o destino da Nação!

Aqui, vivemos juntos de novo, um povo. Sem o peso do corpo e imerso na leveza da alma, esta é a Segunda Vida de Portugal, o Regresso do Desejado, a Alma Portuguesa!...

 

Notas: Como repararam, o poema "Ocidente" acabou por não ser incluído, devido aos limites de duração definidos para o vídeo. Também por isso, outros detalhes ficaram por filmar e o texto e sequência finais foram encurtados, em relação ao meu texto original. O produto final foi o melhor possível, tendo em conta que foi escrito, filmado, gravado e editado em apenas 3 dias ao todo.
Autor: Rui Diniz rd@ruidiniz.net

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Instantes

"Eles são meio-humanos; a outra metade de si mesmos é uma dentada dura dada no vazio. (...) Só eu e os como eu, da nossa posição de percepção zigurática no meio dos semi-vivos, escutamos os intervalos da passagem do tempo pela multidão; apenas porque vivemos cá dentro."

Rui Diniz: Olympus: A Profecia do Grande Espírito - excerto do Prólogo